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Copa, política e eleições

O uso de grandes eventos esportivos com finalidades políticas não é novidade no mundo. A Alemanha do regime nazista utilizou as Olimpíadas de Berlim, em 1936, para demonstrar a capacidade física e a grandiloqüência do país. As Olimpíadas de Seul em 88, reposicionou a imagem internacional da Coréia do Sul, rica e desenvolvida, o passo que faltava para deixar a alcunha de “terceiro mundo” para trás. Assim como o Campeonato Mundial de Rugby em 1995 uniu uma África do Sul dividida pelo apartheid.

No Brasil, a Copa do Mundo de Futebol de 70, vencida em gramados mexicanos,  materializou o ufanismo nacional da ditadura. Do longínquo 1950, primeira vez que o país sediou o mais importante campeonato de futebol, já se vão 64 anos e 5 títulos mundiais. Naquele ano, quando o time brasileiro foi derrotado na final, os ingressos eram baratos e vendidos a preços populares. A segunda edição do torneio da Fifa no Brasil foi anunciada em 2007, quando Lula surfava em grandes ondas de popularidade perante a opinião pública, no início de seu segundo mandato presidencial. Na ocasião, as conquistas de sediar a Copa, e posteriormente também as Olimpíadas de 2016, representavam a “entrada oficial no primeiro mundo”, como propagandeado nos anúncios governistas. Até então, ninguém poderia imaginar que no país do futebol o tema se tornaria politicamente impopular.

O ano de 2013 e a Copa das Confederações trouxeram, contudo, uma novidade política e social. Revoltada com superfaturamentos, atrasos e escândalos em profusão, que indicam ser esta Copa a mais cara da história, a classe média urbana manifestou-se contra a inversão de prioridades e por serviços públicos do mesmo “padrão Fifa”. A insatisfação em visível expansão iniciou um sentimento mudancista, que anima o ímpeto das oposições Brasil à fora com a chegada da competição.

Porém, ao contrário do mito da relação direta entre o torneio e o voto, o resultado dos gramados pouco influencia nas eleições. Assim foi em 98, quando mesmo perdendo a Copa, o então presidente Fernando Henrique conquistou uma fácil reeleição no primeiro turno. Por outro lado, em 2002, o título do Brasil não impediu que um candidato da oposição vencesse o pleito eleitoral. Lula repetiu a dose em 2006, e em 2010 através de Dilma, quando o desempenho em campo foram pouco satisfatórios. Ficando claro, portanto, que a idéia de uma derrota brasileira ser benéfica para a oposição, ou que a vitória da seleção facilitaria o caminho da reeleição presidencial, não prevalecem.

A diferença desta Copa, no cenário eleitoral, se traduz no risco de sua organização. Um “apagão” elétrico, logístico, de segurança ou de comunicação, e mesmo situações causadas por obras concluídas a toque de caixa que demonstrem ineficiência e falta de planejamento, podem amplificar o sentimento dos brasileiros. Neste sentido, a repercussão internacional do evento esportivo terá papel de destaque na imagem e na marca Brasil, ampliando o otimismo ou o pessimismo nacional.

O que determinará o resultado das eleições – tanto federal quanto estaduais, serão as questões de sempre: saúde, emprego, segurança, transportes e as expectativas de futuro. E não o fato de o Brasil ser ou não campeão de futebol. Até o último apito, em 05 de outubro, há muita bola para rolar, em que os resultados fora dos gramados serão muito mais importantes para o placar final.

Por Leandro Grôppo

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